O material apresentado nesta seção do Blog, deve ser lido e considerado em seu contexto histórico e sua relevância para a formação do pensamento social, político, e até o teológico da sociedade moderna e dos diversos momentos da história da humanidade. Isto, entretanto, não significa dizer que subscrevo todas as idéias contidas nos textos e livros aqui publicados, mas apenas que reconheço a importância que exerceram e exercem sobre a história de todo o pensamento ocidental. Creio que todos terão o discernimento e filtro característicos daqueles que possuem a mente de Cristo, levando ainda, em consideração, o ensinamento de 1 Tessalonicenses 5:21 - Examinai tudo. Retende o bem.


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segunda-feira, julho 10, 2006

O SENSO COMUM DE REID – A Filosofia do Óbvio

OS FILÓSOFOS E SEU PENSAMENTO


Se há alguma coisa pela qual os filósofos não são famosos é o sendo comum. Bertand Russell observou certa vez que filosofia é uma questão de começar com alguma coisa tão simples que pareça não merecer ser formulada e terminar com uma tão paradoxal que ninguém acreditará nela. Um cínico diria ser pouco provável que a formulação do óbvio fosse motivo para um pensador constar dos livros de história. Alguns filósofos, no entanto, opuseram-se frontalmente a essa tradição e sustentaram que os instintos que consideramos úteis na vida comum são também os melhores para encararmos as grandes questões da existência. Eles merecem seu lugar na história porque suas razões para sustentar o óbvio são tudo menos banais.

O defensor original do raciocínio de sendo comum foi o filósofo escocês Thomas Reid, nascido em Kincardine em 1710. A ilustre família de Reid incluía seu irmão Alexander, que foi médico do rei Carlos I, e seu tio-avô James Gregory, o inventor do telescópio refletor. Thomas veio de uma longa linhagem de ministros da Igreja Presbiteriana e ingressou na profissão da família após estudar filosofia no Marischal College, em Aberdeen. Como pregador, não eletrizava sua congregação, mas conquistou seu respeito e admiração graças ao seu equilíbrio e decência. O historiador da filosofia escocesa James McCosh escreveu sobre Reid em 1875: “Ele é sob todos os aspectos um escocês da melhor estirpe: astuto, cauteloso, aparentemente calmo, e apesar disso um poço profundo de sentimento por dentro e cheio de entusiasmo; não é espirituoso, mas possui um traço sereno de humor”. Esse “poço de sentimento” ficava em evidência cada vez que Reid ministrava o Sacramento em sua igreja, e não raro ele vertia lágrimas quando se referia ao amor de Cristo. Além de seus deveres religiosos, Reid sentiu-se obrigado a defender os instintos filosóficos do homem comum, ou “o vulgo” como ele dizia. Ficava horrorizado ao ler a filosofia cética de seu compatriota David Hume. Segundo Hume, jamais podíamos ter certeza de que um evento causava outro, de que as leis da natureza continuarão da mesma maneira, ou mesmo de que exista algo como um mundo externo independente de nossas impressões sensoriais. Em 1752, Reid assumiu uma cátedra de filosofia no King’s College, em Aberdeen, e iniciou o projeto de restaurar as crenças no senso comum que Hume demolira.

Em Aberdeen, e mais tarde na Universidade de Glasgow, o talento nada óbvio de Reid para ensinar deu origem à escola filosófica do senso comum. Um de seus alunos escreveu:

Sua elocução e modo de instrução ali nada tinham de peculiarmente atraentes. Raramente, ou nunca, entregava-se ao calor do discurso extemporâneo; nem era sua maneira de ler calculada para aumentar o efeito do que pusera por escrito. Tais eram, contudo, a simplicidade e a nitidez de seu estilo, tal a gravidade e autoridade de seu caráter, e tal o interesse geral de seus jovens ouvintes nas doutrinas que ensinava, que, pelas numerosas audiências a que suas instruções eram dirigidas, era ouvido, uniformemente, com muda e respeitosa atenção".

Reid costumava pedir a seus alunos que recorressem aos seus instintos ao discutir a verdade. As crenças de senso comum, afirmava, são aquelas de que não podemos abrir mão em virtude de nossa natureza como seres humanos (ou, nos termos de hoje, aquelas que somos neurologicamente constituídos para aceitar). Embora as pessoas possam contradizer suas intuições, ele admitia, não o podem fazer sem sofrer uma perturbação psicológica. Isso pode ser em grande parte uma verdade, mas não significa que crenças que provocam conflitos mentais não sejam corretas. Alguns indivíduos considerados loucos em seu tempo (e que por vezes eram realmente loucos – como o filósofo Friedrich Nietzsche) foram mais tarde reconhecidos como grandes gênios. O próprio Hume sofreu um colapso nervoso quando estava formulando seus argumentos em favor do ceticismo. Em defesa da idéia de Reid, contudo, parece intuitivamente plausível que crenças que levam a colapsos nervosos tenham menos probabilidade de ser verdadeiras que as que não abalam nossa saúde. A raça humana não teria sobrevivido se nossos instintos fossem irremediavelmente idiotas. No geral, eles nos conduzem a agir sensatamente: saltar de precipícios, em buracos de cobra ou sobre fogueiras são todos atos fortemente desencorajados pelo senso comum. Uma tendência ao ceticismo filosófico, por outro lado, não teria sido de muita valia para nossos ancestrais se, em vez de fugir à vista de um leão faminto, parassem para questionar a existência objetiva do animal.

Reid teria visto no nosso comportamento em face de leões um bom exemplo de senso comum inerente, o qual, ele acreditava, podia-se muitas vezes descobrir olhando para o que é constante em todas as pessoas. Infelizmente, noções consideradas de senso comum em um lugar podem não merecer essa distinção em outro. Essas crenças são muitas vezes particulares de uma cultura específica em um determinado momento. Para os membros da tribo dos Fang, na Guiné equatorial pré-moderna, nada mais senso comum que a idéia de incorporar o espírito e a força dos inimigos comendo-os no jantar.

O que constitui senso comum pode mudar ao longo do tempo. Manuais de ética para estudantes de filosofia no início do século XX costumavam abrir com um capítulo sobre a idéia de “senso comum” segundo a qual os valores morais eram fatos objetivos. Os volumes contemporâneos ainda abordam em primeiro lugar a noção de senso comum, só que agora, segundo essa noção, a ética é uma questão de opinião subjetiva. A única maneira de descobrir se uma crença é realmente parte da natureza humana é verificar se ela pareceu óbvia para todos os povos em todas as eras. E, mesmo nesse caso, nada impede que as pessoas venham a pensar de outra maneira no futuro. Em um momento ou em outro, o senso comum nos assegurou que os insetos se desenvolvem a partir de partículas de poeira, que o corpo humano não suportaria viajar nas velocidades alcançáveis pelas máquinas a vapor e que o mundo era um disco chato situado no centro do universo. Reid supunha, ademais, que duas crenças ditadas pelo senso comum nunca poderiam entrar em conflito entre si, mas nem sempre as coisas são tão simples. Os que fazem campanha por impostos menores com base na economia de “bom senso” são, por vezes, as mesmas pessoas que defendem a causa de mais verbas para o transporte público porque ele também contribui para a criação de riqueza. Tendo sido a causa do dilema dessas pessoas, o senso comum por si só não lhes pode sugerir nenhum meio de resolvê-lo.

Enquanto isso, a humanidade deu grandes passos ao abraçar idéias que contrariam nossos instintos naturais, como a teoria quântica ou as noções de que a Terra é redonda e não chata e orbita o Sol, e não o contrário. Embora pareça bastante eficiente quando se trata de autopreservação, o senso comum não é tão confiável na esfera de matérias factuais mais complicadas. Por exemplo, o físico Erwin Schrödinger (1887-1961) imaginou uma caixa em que há um gato e um mecanismo para liberar gás de cianeto controlado pelo decaimento radioativo de um átomo. Segundo a teoria quântica, se o átomo decai e libera o veneno ou não, é algo inteiramente aleatório e imprevisível. O fato é indeterminado até que abramos efetivamente a caixa e inspecionemos o mecanismo. Isso significa, no entanto, que até que o façamos o infeliz felino não estará nem vivo nem morto, mas em algum estado vivo-morto indeterminado. A mente humana tem dificuldades em aceitar isso atualmente, mas para nossos descendentes talvez venha a não parecer mais perturbador do que o fato de a Terra ser esférica.

Reid sustentava ainda que o que vemos como meros instintos não são necessariamente inferiores aos ditames da razão. Explicou sua posição da seguinte maneira:

Pergunta-me o cético: Por que acreditas na existência do objeto natural que percebes? Essa crença, senhor, está longe de ser da minha lavra; ela vem da forja da Natureza; traz-lhe a imagem e a inscrição; e, se não for correta, o erro não é meu: acolhi-a mesmo sem verificação prévia e sem desconfiança. A razão, retruca o cético, é o único juiz da verdade, e deverias rejeitar toda opinião e toda crença que não seja fundada na razão. Ora, senhor, deveria eu crer na faculdade da razão mais do que na da percepção? – ambas provêm da mesma oficina, são obra do mesmo artista; e se ele põe um artigo falso em minhas mãos, que o impediria de pôr outro?”

Foi com essa disposição que Reid atacou a doutrina lockiana das idéias em que o ceticismo de Hume em parte se fundava. John Locke (1632-1704) e seus sucessores na tradição empirista sustentavam que nunca percebemos objetos diretamente no mundo externo, percebemos somente as idéias ou impressões que temos deles. Assim, a percepção é, de fato, a apreensão de objetos mentais. Como tudo que diz respeito à cognição se passa na esfera mental, de duas, uma: ou, jamais podemos descobrir se nossas idéias correspondem a objetos físicos; ou, se podemos, é porque os próprios objetos devem ser idéias também – como afirmou o idealista George Berkeley (1685-1753). Reid compreendeu que isso meramente substituía um problema por outro de igual tamanho. Locke partira da questão de como nossos estados mentais conectam-se com objetos no mundo, mas sua solução só fez criar um novo problema: o de como nossos estados mentais conectam-se com objetos na mente. Agora que temos a história da filosofia à nossa disposição, podemos ver que a maneira como este segundo problema foi proposto e enfrentado o torna suspeitosamente semelhante ao primeiro. Segundo Reid, no entanto, o segundo problema nos põe numa posição ainda mais incerta. A teoria de Locke só poderia ajudar nossa compreensão se as idéias que ele introduz como os novos objetos da percepção fossem menos obscuras que as antigas – isto é, os objetos físicos comuns.

Não precisamos ler as obras muitas vezes árduas de Locke para intuir que não é esse o caso. É mais simples, e certamente mais fiel ao senso comum, admitir que temos percepções de objetos físicos, por menos confiáveis que sejam, e não percepções de idéias que, por sua vez, podem ou não estar relacionadas a esses objetos. Como diria Guilherme de Occam, introduzir objetos mentais na equação seria multiplicar entidades além do necessário. E a introdução de objetos mentais não situa tampouco nosso conhecimento em um terreno mais firme, pois Locke criou o jogo de soma zero que leva ao ceticismo: quanto mais certos estamos com relação aos objetos do conhecimento, menos certos podemos estar quanto ao significado desse conhecimento. Em outras palavras, embora possamos estar certos de que percebemos idéias, continuamos em nenhuma garantia de que essas idéias têm qualquer correspondência que seja com o mundo. E se essa teoria não tem um fundamento melhor que a alternativa ditada pelo senso comum, no que dependia de Reid nossa decisão entre instinto e ceticismo era fácil.

A força da argumentação de Reid reside menos na defesa dos direitos das idéias correntes que em atribuir o ônus da prova aos que os desejariam refutar. Como disse um velho filósofo: “Toda conclusão é a refutação de suas premissas”. Quanto mais absurdas são nossas conclusões, mais dúvidas isso lança sobre as bases das quais as derivamos – mesmo que essas bases parecessem sensatas e incontroversas antes que começássemos a raciocinar a partir delas. Se nossas crenças de senso comum são aquelas de que nos sentimos mais seguros, será duplamente difícil alterá-las porque elas são mais convincentes que as bases de qualquer argumento que nos leve a questioná-las Não precisamos, portanto, justificar nossa crença no mundo extremo – para Reid, o que requer forte justificação é a noção, aparentemente estapafúrdia, de que a realidade poderia ser uma ilusão. Essa idéia foi retomada pelo filósofo inglês G. E. Moore no início do século XX. Em uma tirada famosa, Moore observou que uma inferência cética de que ele não tinha mãos jamais seria tão convincente quanto a evidência de suas duas mãos erguidas diante de seu rosto.

No mínimo, as advertências de Reid nos lembram que, se desejamos nos afastar do senso comum em nossas crenças, conviria que nos assegurássemos de que estamos ganhando alguma coisa que valha a pena com essa deslealdade aos nossos instintos. Quatro séculos antes, Guilherme de Occam nos aconselhou a só complicar as questões se com isso pudéssemos explicar as coisas melhor do que mantendo simples. Assim também, Reid propõe que só deveríamos rejeitar o senso comum se essa alternativa for claramente mais imperativa do que aquilo em que nossos primeiros instintos nos levam a acreditar. As crenças de senso comum devem ser sempre levadas a sério, ainda que apenas porque, de outro modo, não iremos muito longe na tentativa de demover delas quem quer que seja. Se existe uma teoria, talvez antiga, que parece explicar nossas experiências adequadamente, estamos cobertos de razão ao suspeitar de afirmativas contrárias a ela. Se vemos nossas crenças serem subvertidas de modo demasiado rápido e fácil, podemos começar a ficar desconfiados. Isso porque, enquanto as provas para uma idéia que contraria nossa intuição estão sendo reunidas, surge uma questão completamente diferente: se a nova teoria é tão sucinta, tão bem embasada e tão claramente correta, por que cargas d’água fomos obtusos a ponto de sustentar nossas antigas crenças, e até de considerá-las de senso comum? Poderíamos dizer que quanto mais fortes são os argumentos em prol de uma nova teoria, mais forte precisa ser a explicação para o fato de termos algum dia pensado o contrário.

Tomemos por exemplo a nova ortodoxia segundo a qual álcool faz bem à saúde. A organização de serviços de saúde Bandolier coleta resultados de experimentos médicos conduzidos no mundo todo e os combina para chegar à maior base de testes possível. Apoiando-se em sua pesquisa, publicou em janeiro de 2000, em um sumário de dez tópicos, conselhos sobre a vida saudável. Este era o número cinco da sua lista:

Beba álcool regularmente. O tipo de álcool provavelmente não importa muito, mas o equivalente a duas taças de vinho por dia ou umas duas cervejas é uma boa coisa. Um dia ou outro sem álcool também não fará mal. Pense nele como um remédio.”

Por anos fomos ensinados a ver o álcool como veneno. Essa idéia intuitiva era confirmada cada vez que um alcoólatra desenvolvia uma cirrose, para não falar de cada vez que tínhamos uma ressaca. Uma só dose de vodca, diziam-nos os médicos, podia destruir milhares de células cerebrais. Aqueles que agora estimulam a bebida em quantidades moderadas não procuram negar isso, porém, teriam sido ridicularizados pela medicina se negassem os efeitos deletérios de bebedeiras homéricas. O que afirmam é, isto sim, que o álcool faz bem à saúde, ainda que a base para nossa idéia de senso comum de que a bebida é um flagelo esteja correta. Se eles não concordassem conosco a respeito dos efeitos nocivos do consumo excessivo, não veríamos razão alguma para acreditar na sua idéia dos benefícios trazidos pela ingestão de quantidades menores. Tomar duas garrafas de vodca ainda pode nos matar; o único problema é que é mais provável alguém tomar uma superdose de paracetamol que uma de arsênico. Recebemos também uma explicação plausível de por que os efeitos positivos da bebida passavam despercebidos anteriormente: é porque eles só são reconhecíveis a partir de um estudo de tamanho considerável apoiado por pesquisa bioquímica – um meio não disponível para o indivíduo que está usando apenas seu senso comum.

Foi necessário, para fins de argumentação, que os pesquisadores mostrassem que a velha idéia que se tinha da bebida era sensata em face dos melhores dados disponíveis. Uma explicação desse tipo não acrescenta nada, de fato, à validade de uma argumentação contra uma idéia de senso comum, o que acrescenta, sim, é plausibilidade – e essa era a própria qualidade em cujo julgamento, segundo Thomas Reid, nossos instintos eram insuperáveis. Talvez no futuro descubramos que muitas crenças que consideramos incontestáveis são de fato errôneas, mas se alguém propuser que o vício em heroína é psicologicamente benéfico, ou que um casamento estável é um ambiente inadequado para a criação de crianças, o ônus da prova deve caber a esses revolucionários, não aos tradicionalistas.


O próximo artigo desta série é O CONTRATO DE ROUSSEAU

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