O material apresentado nesta seção do Blog, deve ser lido e considerado em seu contexto histórico e sua relevância para a formação do pensamento social, político, e até o teológico da sociedade moderna e dos diversos momentos da história da humanidade. Isto, entretanto, não significa dizer que subscrevo todas as idéias contidas nos textos e livros aqui publicados, mas apenas que reconheço a importância que exerceram e exercem sobre a história de todo o pensamento ocidental. Creio que todos terão o discernimento e filtro característicos daqueles que possuem a mente de Cristo, levando ainda, em consideração, o ensinamento de 1 Tessalonicenses 5:21 - Examinai tudo. Retende o bem.


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segunda-feira, julho 10, 2006

O PRÍNCIPE DE MAQUIAVEL - O Apelo Ao Que Há de Pior em Nossa Natureza

Este é o 8º artigo anteriores desta série. Os três últimos são:

06 - As Metas de Aristóteles
07 - A Lança de Lucrécio
08 - A Navalha de Occam

Niccolò Machiavelli, ou Maquiavel, declarou que, para o soberano “mais vale ser temido que amado, é mais prudente ser cruel que compassivo”. Por causa de conselhos desse tipo, “maquiavelismo” tem sido, há séculos, um epíteto para vilania, quando, mais propriamente, implica realismo. As palavras “fantasia” e “idealismo”, por outro lado, escaparam de certo modo ao opróbrio lançado sobre sua rival, embora em qualquer relato imparcial da história do século XX sejam elas que mais têm do que se defender. Os pensamentos que fizeram a má fama de Maquiavel foram elucidados em O Príncipe, escrito em 1513 para Lorenzo de Médici, soberano de Florença. O livro não é moral nem imoral; é amoral. Não é nem um discurso de justificação do poder do Estado, nem um tratado sobre os objetivos morais que um soberano deveria perseguir. Ao contrário, é um guia neutro para se alcançar e manter o poder político. Suas estratégias tomam os homens como são, não como deveriam ser. Como Maquiavel escreveu: “O modo como os homens vivem está tão distante do modo como deveriam viver que alguém que abandone o que é pelo que deveria ser persegue sua derrocada, não sua preservação.” De que valem, afinal , valores políticos sem o poder de colocá-los em prática? Os mesmos sentimentos são evidentes hoje nas proezas dos políticos democráticos modernos para arranjar voto sempre que o dia das eleições se aproxima. Talvez eles não o admitam, mas suas proezas também encontrariam aprovação nas páginas de O Príncipe.

Muitos grandes filósofos consideravam a maior parte das pessoas estúpidas; Maquiavel, porém, preferia considerá-las perversas. Os soberanos, ele afirmava, deveriam ter isso como favas contadas e, se eles tivessem sorte elas seriam também estúpidas. Claramente, a perversidade de que Maquiavel falava era licenciosidade e egoísmo – dois vícios que o liberalismo e o capitalismo de hoje toleram respectivamente. Se hoje o veredicto de Maquiavel sobre o comportamento dos homens comuns parece cruel, não dever ter soado mais brando no clima filosófico do início do século XVI. O ethos humanista do Renascimento buscava liberar as intenções virtuosas da humanidade, e permitir-lhes dar forma ao bom funcionamento do Estado. Sendo basicamente um autodidata, Maquiavel evitou essas idéias prontas em seus estudos iniciais. Mas embora não desse aos valores morais a ênfase que lhes conferiam seus confrades, partilhava da idéia de Galileu e outros de que o homem poderia vir a compreender o projeto de Deus para o universo. Sua metodologia era humanista, mesmo que suas conclusões não o fossem.

Livros parecem ter sido o único divertimento de Maquiavel em sua juventude. Ele nasceu em 1469 em um ramo relativamente empobrecido de uma rica e poderosa família florentina. Seu aprendizado heterodoxo não atrapalhou sua carreira profissional e, em 1498, com apenas 29 anos foi nomeado Chanceler de Florença. A Itália estava mergulhada em tumultos políticos nessa época, nenhuma de suas quatro cidades-Estado dominantes sendo capaz de resistir à influência estrangeira. O último capítulo de O Príncipe é intitulado “Exortação à libertação da Itália das mãos dos bárbaros” – termo pelo qual Maquiavel se referia aos franceses e espanhóis. Embora tenha escrito que a ocupação promovida por esses estrangeiros “fede às narinas de todos nós”, em 1500 passou cinco meses na corte francesa, em uma missão diplomática, e viu como a vida podia ser diferente em um país unido sob um poder central forte. E no entanto, pensou, os cidadãos da França e os de Florença não são assim tão diferentes. Eram todos seres humanos com as mesmas paixões, e o que dava resultado para uma raça deveria poder ser aplicado satisfatoriamente a outra. A seu ver, porém, isso não poderia ser conseguido mediante o apelo ao que esse povo tivesse de melhor em sua natureza, pois essa suposta bondade, era em grande parte uma fantasia. Em contrapartida, os meios mais execráveis que um soberano pudesse usar para conservar seu poder justificavam-se, porque a vilania do soberano nada é se comparada à de seus súditos. Maquiavel teve até uma palavra amiga a dizer sobre o tirânico César Bórgia, que se apossou de um território na Itália central em questão de meses. Justificação não era a preocupação fundamental de Maquiavel. O Príncipe é um livro sobre meios, não sobre fins.

Os preceitos de Maquiavel são admiravelmente claros e sucintos – em contraste, por exemplo, com os conselhos nebulosos dos guias atuais para o sucesso na vida e nos negócios. Um soberano – p. ex., Deus – deseja idealmente ser tanto temido quanto amado, mas como em geral só uma dessas duas coisas é possível em um dado momento, ele deveria escolher ser temido. Essa é a opção mais segura, porque as pessoas são:

Ingratas, inconstantes e falazes, ansiosas por evitar perigos e ávidas de ganhos, e enquanto lhes sois útil estão do vosso lado, oferecendo-vos seu sangue, seus bens, sua vida e seus filhos enquanto o perigo está distante... quando ele se aproxima, porém, vos dão as costas.”

Embora os homens sejam criaturas torpes, prontas a quebrar um vínculo de amor quando de seu interesse, o medo que a ameaça de punição assegura será sempre eficaz em garantir obediência. Se Maquiavel está certo, parece que as pessoas têm o governo que merecem.

Embora seja útil ser temido, convém evitar ser odiado. A virtude não deveria ser o objetivo principal de um soberano, mas tampouco o deveria ser a má ação. Ao contrário, “ele deve praticar o bem até onde puder, mas, se compelido pela necessidade, deve estar pronto a tomar o caminho do mal”. Como déspotas desde Kim II-Sung da Coréia do Norte e Saddan Hussein ex do Iraque descobriram, uma vez implantado o medo, é possível fingir que seu povo o adora. Maquiavel consideraria essa estratégia arriscada demais, embora de fato aconselhe o logro como um dos métodos operacionais do soberano. Um líder nunca deveria cumprir sua palavra quando isso lhe é desvantajoso, mas deve haver pelo menos um arremedo de verdade no que diz. Um bom soberano será um exímio mentiroso. Da mesma maneira, é uma boa idéia para empresas mostrar-se preocupadas com o meio-ambiente ou solidárias com seus empregados, mas talvez não seja do interesse financeiro de seus acionistas que tudo isso seja mais que simulação. Cidadãos – ou clientes, ou trabalhadores – podem ser com certeza perversos, mas, segundo Maquiavel, as coisas ficam mais fáceis se além disso forem tolos, “pois a massa se deixa sempre impressionar por aparências e resultados, e o mundo é composto de massa”. Para que nossos métodos funcionem, portanto, pode ser necessário mantê-los ocultos. Como cínicos observam muitas vezes hoje em dia, se o povo realmente gostasse de políticos honestos não insistiria em votar em canalhas.

Ao mesmo tempo, um soberano deveria exigir que seus conselheiros lhe dissessem sempre a verdade. Deveria ter em mente, porém, que esses conselheiros não são menos perversos e interesseiros que o comum da humanidade. Punições, rebaixamentos de posto e más notícias deveriam ser ministrados todos ao mesmo tempo, sempre que as condições o permitam, pois quanto menos durarem mais breves serão seus efeitos secundários. Favores e notícias boas, por outro lado, deveriam ser ministrados em pequenas doses por um longo tempo, de modo que seu efeito seja mais duradouro. Ultimamente, os políticos aprenderam a fazer melhor ainda: anunciam uma mesma notícia boa, como um aumento dos gastos públicos, em várias ocasiões diferente, apenas mudando as palavras a cada vez.

Um soberano astuto deveria ter o cuidado de não ficar em cima do muro. Segundo Maquiavel, a ação resoluta é a melhor forma de prudência. Isso pode surpreender todos que já se viram entre dois amigos em conflito. Tomar o partido de um deles costuma ser uma maneira segura de incorrer no desagrado de ambos depois que tiverem se acertado. Porém, ainda que o conselho de Maquiavel viesse a se provar útil nesse caso, o resultado seria não o êxito de uma amizade, mas meramente o êxito de uma relação de poder. Tratamos nossos verdadeiros amigos não como meios para um fim – como o soberano trata seus cônjuges -, mas como fins em si mesmos. Um político, por outro lado, deve estar tão pronto a sacrificar uma amizade quanto um amigo deve estar a sacrificar o poder. Em defesa de Maquiavel, poderíamos dizer que não há amizades verdadeiras na política. Na arte de governar, ele sustentou, deveríamos nos aliar a um ou outro combatente porque, seja qual for o resultado, passaríamos a ser credores de alguém. Um futuro governante da ItáliaBenito Mussolini – ouviu esse conselho e pagou por ele com sua vida. Teria sido mais prudente seguir os passos do ditador da Espanha, Francisco Franco, que ofereceu a Hitler somente sua simpatia e em conseqüência permaneceu no cargo por trinta e seis anos, até morrer aos oitenta e três anos de idade. Em geral, Maquiavel insistia que um soberano deveria liderar e defender seus vizinhos mais fracos, e esforçar-se por debilitar os mais fortes. E quando os fracos se desentendem entre si, é melhor ajudar um a esmagar o outro que correr o risco de vê-los juntos contra nós no futuro. Maquiavel talvez não tenha sido muito cínico aqui, pois às vezes a intervenção leva exatamente a essa contingência.

Em 1992, os Estados Unidos iniciaram a Operação Restauração da Esperança para levar ajuda à Somália destroçada pela guerra. O plano frustrou-se rapidamente quando os somalis se deram conta de que preferiam lutar contra os americanos do que uns com os outros. Quando o enviado dos EUA , Almirante Howe ofereceu uma recompensa de 25.000 dólares pelo general Mohamed Aidid, o comandante anunciou horas depois que pagaria um milhão de dólares pela captura do “Animal” Howe. Bill Clinton reagiu ao número crescente de mortos em combate num estilo maquiavélico de manual. Como seu ex-assistente George Stephanopoulos contou em All Too Human [Tudo muito humano], o presidente declarou: “Não estamos castigando esses filhos de uma égua. Quando pessoas nos matam, devem ser mortas em maior quantidade.” O resultado foi um fiasco vexaminoso para os Estados Unidos, para Clinton e todos os seguidores de Maquiavel. Nas palavras do porta-voz da ONU, o major Dave Stockwell: “Viemos, lhes demos comida e levamos um pontapé no traseiro”.

O consolo é que os Estados Unidos teriam enfrentado críticas mesmo que tivessem deixado os somalis entregues à própria sorte desde o início. A volúvel opinião pública ocidental queixa-se de “imperialismo” quando os Estados Unidos intervêm e de “insensibilidade” quando não o fazem. Maquiavel, que não esperava menos de pessoas que considerava torpes, seria compreensivo:

Que nenhum Estado pense que pode sempre adotar uma rota segura; mais valeria compreender que todas as escolhas envolvem riscos, pois a ordem das coisas é tal que nunca se escapa de um perigo sem incorrer em outro; a prudência está em ponderar as desvantagens de cada escolha e tomar a menos má como boa.”

Isto não quer dizer que não podemos complicar as coisas com nossas ações. A causa americana não foi ajudada quando, por ocasião de um encontro dos dignitários do clã de Mogadíscio em 12 de julho de 1993 para discutir passos em direção à paz, a casa foi cercada por helicópteros americanos e destruída por mísseis, resultando na morte de mais de cinqüenta pessoas. Contudo, se os Estados Unidos voltassem a se recolher ao isolacionismo, e deixassem os pobres e os fracos do mundo entregues à própria sorte, ninguém poderia dizer que Maquiavel não os advertiu. Nenhum príncipe com algum juízo joga dinheiro fora.

Não deixe de ler AS GALINHAS DE BACON, o próximo artigo. E olha que não é nenhuma receita culinária, ok?

2 Comments:

Blogger Português para Concursos said...

Olá, sou o Prof. Nélson Bittencourt. Leciono Língua Portuguesa através de textos e gostaria de afirmar que, conquanto seja muito falada fora e dentro do universo acadêmico, a frase "Os fins justificam os meios" nunca foi dita por Nicolau Maquiavel.

Atenciosamente,
Nélson Bittencourt
Curso Práxis, Maceió-AL

6:45 PM  
Blogger curso_práxis said...

Olá, sou o prof. Nélson Bittencourt e leciono Língua Portuguesa através de textos. Acho interessante o fato de Maquiavel nunca haver dito a frase "Os fins justificam os meios", apesar de ser muita falada nos círculos acadêmicos.

Grato.

6:58 PM  

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