O material apresentado nesta seção do Blog, deve ser lido e considerado em seu contexto histórico e sua relevância para a formação do pensamento social, político, e até o teológico da sociedade moderna e dos diversos momentos da história da humanidade. Isto, entretanto, não significa dizer que subscrevo todas as idéias contidas nos textos e livros aqui publicados, mas apenas que reconheço a importância que exerceram e exercem sobre a história de todo o pensamento ocidental. Creio que todos terão o discernimento e filtro característicos daqueles que possuem a mente de Cristo, levando ainda, em consideração, o ensinamento de 1 Tessalonicenses 5:21 - Examinai tudo. Retende o bem.


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sábado, junho 24, 2006

AS METAS DE ARISTÓTELES - Os Propósitos da Vida

Artigos anteriores desta série:
Aristóteles não teve um método único que aplicasse a toda a sua filosofia. A seu ver, cada área de estudo requeria procedimentos de investigação e padrões de exatidão próprios. Como escreveu a respeito da ética,

"Nossa discussão será adequada se tiver tanta clareza quanto o tema permitir, pois a precisão não deve ser buscada sempre da mesma maneira em todas as discussões, assim como não o pode ser em todos os produtos dos ofícios."

Aristóteles tinha, contudo, uma idéia que, na sua opinião, podia ajudar a explicar muitas coisas, do movimento dos corpos celestes ao comportamento dos seres humanos: a teleologia. Tratava-se da idéia de que o presente podia ser compreendido por referência ao futuro. A natureza de uma coisa – fosse uma semente ou um homem – era inextricavelmente ligada a seu telos, sua meta ou fim último. O fim último de um objeto dá forma à sua natureza, e essa natureza subseqüentemente o compele rumo a sua meta. A meta de uma bolota, por exemplo, é um carvalho, e só podemos compreender a bolota por referência ao que ela tem o potencial de se tornar. Ademais, bolotas só nascem em carvalhos, nunca em abetos ou macieiras, muito embora estas árvores sejam nutridas pela mesma água e o mesmo solo que as primeiras. Segundo Aristóteles, era o telos da bolota, expresso em sua constituição, que fazia a diferença. Também os seres humanos tinham um fim último, e, se conseguíssemos compreender qual era ele, estaríamos muito mais bem preparados para alcançá-lo.

Aristóteles nasceu em Estagira, uma pequena colônia grega na costa Trácia, em 384 a.C. Seu pai, que morreu quando ele era menino, era o médico da corte do rei da Macedônia, daí a grande vinculação do filósofo com o Estado. Aos dezoito anos, ele viajou para Atenas a fim de estudar na Academia sob a orientação de Platão. Ali permaneceu pelos vinte anos seguintes, despontando como o mais notável discípulo de seu mestre – embora nem sempre o mais obediente. Seria de esperar que Aristóteles assumisse o comando da escola após a morte de Platão em 347 a.C., mas na qualidade de residente estrangeiro estava legalmente impedido de ter propriedades em Atenas. De todo modo, a essa altura as idéias de Aristóteles haviam divergido radicalmente da ortodoxia platônica. “Sou amigo de Platão”, ele disse, “mas ainda mais amigo da verdade”. Ao contrário de seu mestre, preferia investigar fatos a especular sobre ideais elevados, pelo menos num primeiro estágio. Quem assumiu o comando da Academia foi Espeusipo, um sobrinho de Platão, e Aristóteles partiu em viagem pela Ásia Menor com os amigos e colegas Teofrasto e Xenócrates. Ali casou-se com Pítia, sobrinha do soberano de Atarnéia, mas este foi morto numa rebelião e dois anos depois Aristóteles foi convocado a Pela, capital da Macedônia, pelo rei Filipe. O rei lhe pediu que, na condição do eminente intelectual do mundo, fosse o preceptor privado de seu filho de treze anos, o futuro Alexandre, o Grande. A missão agradou muito ao filósofo, pois diferentemente de Platão, acreditava que esse papel nos bastidores era o mais apropriado par os filósofos. Como escreveu num fragmento que restou de uma obra perdida, Da Realiza:

"Para um rei, não é apenas desnecessário ser um filósofo, é até uma desvantagem. Um rei deveria, antes, ouvir o conselho de verdadeiros filósofos. Assim, cumularia seu reino de boas ações, não de boas palavras."

Quer as ações de Alexandre possam ou não ser qualificadas de “boas”, ele pelo menos conseguiu conquistar o mundo conhecido. Aristóteles parece ter tido pouca influência sobre seu pupilo além de infundir-lhe sonhos de glória homérica. Por exemplo, certa vez ele sugeriu a Alexandre que a melhor maneira de manter a subserviência dos bárbaros derrotados aos gregos era tentar impedir casamentos mistos. O aluno respondeu casando-se com a filha de um nobre persa e obrigando seus generais a fazer o mesmo. Apesar disso, Aristóteles continuou sendo um conselheiro informal, e muitas vezes distante, de Alexandre depois que este se tornou adulto, só tendo tido um dissabor quando o imperador achou por bem executar seu cronista – e sobrinho de sangue de Aristóteles – Calístenes de Olinto por traição em 328 a.C.

Após passar três anos na corte Macedônia, Aristóteles recolheu-se à propriedade de sua família em Estagira e, em 335 a.C., já com quase cinqüenta anos, voltou para Atenas. A essa altura Espeusipo morrera e o velho amigo de Aristóteles, Xenócrates, fora eleito para dirigir a Academia. Aristóteles fundou uma escola rival, chamada Liceu, num bosque fora da cidade. Nos treze anos seguintes, ministrou aulas complexas para um círculo exclusivo de discípulos, antes de passar a fazer preleções para um público mais amplo à noite. Muitas das obras do filósofo que sobreviveram, datam dessa época, em geral na forma de apontamentos de aula. Somam quarenta e sete volumes, mas provavelmente representam pouco mais de um quarto de sua produção total. Aristóteles era em seu tempo a pessoa mais versada em todos os campos intelectuais, da astronomia e da lógica à anatomia e à geografia. Ninguém, antes ou depois, jamais se lhe equiparou. Sua derrocada veio em 323 a.C, quando a morte de Alexandre, o Grande, provocou uma revolta contra o governo pró-macedônio de Atenas. Como associado do falecido imperador, Aristóteles enfrentou acusações falsas de impiedade. Resolveu fugir para que – como consta teria dito – “os atenienses não tivessem outras oportunidades de pecar contra a filosofia como já o haviam feito com Sócrates”. Um ano mais tarde, sucumbiu a uma doença do estômago e morreu onde se refugiara, na ilha mediterrânea de Eubéia.

A questão dos “fins últimos” foi uma parte pequena, mas persistente, da volumosa obra de Aristóteles. Ele afirmava que os cientistas que o haviam precedido, como Demócrito (-370 a.C), haviam se concentrado demais no “empurrão” do passado e não o bastante no “puxão” do que estava por vir. Explicou que as coisas tinham quatro tipos distintos de causas – materiais, formais, eficientes e finais. A causa material de uma estátua, por exemplo, seria o mármore ou o bronze de que era feita. Essa matéria continha a potencialidade da estátua em sua massa amorfa. A causa formal era a idéia ou imagem segundo a qual a estátua era moldada, e existia como um plano na mente do escultor. O escultor é também a causa eficiente – isto é, o agente da mudança que o mármore ou o bronze sofre. A causa “final” é o propósito para o qual a estátua foi feita, como o desejo de agradar a um protetor ou de ganhar a vida como artista. Segundo Aristóteles, toda ação envolve a liberação de um ou outro tipo de potencialidade na matéria com essa causa final em vista. O ovo é potencialmente a galinha e, após a incubação, alcança seu fim ao sair da casca. A água, por outro lado, contém a potencialidade do vapor, que é liberado através da ação de um fogo aceso sob o caldeirão. Todas as coisas aspiram a passar da potencialidade para sua atualidade, e, por fim, a um estado de perfeição – que é também um estado de repouso. O movimento e a mudança são os meios pelos quais o alcançam, dirigidas por suas causas finais, ou metas. As pedras, por exemplo, caem no chão quando as largamos, em vez de subir flutuando até as nuvens porque são essencialmente coisas materiais e buscam a terra, que é o lugar mais baixo. As chamas, por outro lado, têm em si algo de celeste e se projetam para o alto. Outros objetos buscam diferentes lugares de repouso, segundo sua natureza particular.


Enquanto o fim último de uma estátua requer a ação do escultor para liberar sua potencialidade, os objetos naturais detêm essa possibilidade de ação em si mesmos. No mundo natural, ensinou Aristóteles, todas as coisas tinham um telos e exibiam um projeto natural de buscá-lo. As chamas e as pedras também tinham um telos, mas eram os projetos oferecidos pelo estudo zoológico que propiciavam a Aristóteles suas ilustrações mais claras. Ele se impressionava como quanta coisa, no mundo vivo, parecia arranjada não de maneira casual, mas propositalmente e das maneiras mais complicadas e improváveis. O propósito dos olhos, claro, é ver, e eles são criados com tal complexidade que a visão se torna possível. O propósito dos guepardos é caçar gazelas, para isso lhes são dadas patas fortes a fim de que possam correr no encalço de suas presas. As gazelas, por sua vez, perseguem o propósito de escapar dos guepardos e, por isso, também podem correr muito velozmente. Os dois animais, tal como os seres humanos, têm dentes incisivos para morder e molares para mastigar – ações para as quais estão respectivamente bem adaptados. Deixados ao acaso, poderíamos nascer eventualmente com os molares na frente de nossas bocas e os dentes incisivos atrás. A razão por que isso acontece tão raramente reside na mão do propósito, embora Aristóteles não pensasse que essa mão precisasse estar presa ao braço de um Criador inteligente. A noção de um universo projetado para nosso benefício por um Deus benevolente foi uma adaptação do pensamento de Aristóteles levada a cabo por seus comentadores cristãos. O deus imaginado por Aristóteles gozava de uma condição de atualidade absoluta e repouso perfeito. Toda a sua obra – toda a sua potencialidade – estava, por assim dizer, realizada, e era pouco provável que Ele tivesse algum interesse nos assuntos dos mortais.

Aristóteles estava certo ao afirmar que características como dentes aguçados e patas fortes não se tornam onipresentes numa espécie por obra do acaso. Ignorava, contudo, o mecanismo da seleção natural que os produzia – um fator que permaneceria desconhecido até a publicação da Origem das Espécies por Darwin em 1859. Guepardos nascidos com patas fracas teriam morrido de fome antes de poder transmitir seus traços à sua progênie e, assim, seus rivais de patas fortes acabariam se multiplicando mais depressa. Patas fortes tampouco eram algo que a espécie dos guepardos “buscasse obter”, por assim dizer, como um fim último, não passando de uma resposta a seu ambiente – nesse caso, a velocidade de sua presa. Caso as gazelas tivessem desenvolvido dentes e garras aguçados para se defenderem em vez de patas fortes com que fugir, guepardos de constituição mais robusta predominariam sobre os espécimes enxutos “projetados” para a velocidade. Isso até poderia vir a acontecer, se esperássemos mais alguns milhares de anos. É fácil entender por que a velocidade é um traço tão bem-sucedido no patrimônio genético dos guepardos no presente, já que os ajuda a alcançar seu objetivo de capturar sua presa. Mas esse não é, estritamente falando, o objetivo de suas pernas. Da mesma maneira, os olhos não existem “para” ver, simplesmente vêem – uma capacidade que assegura sua proliferação no patrimônio genético. A seleção natural não é o processo inerente pelo qual a natureza passa da potencialidade à atualidade, para usar a terminologia de Aristóteles. É antes um mecanismo “cego” que não favorece um fim último em detrimento de outro. Tudo que ela assegura é que os traços mais bem adaptados a um ambiente particular proliferam – e esse ambiente pode mudar, como mudou para os trilobitos e os dinossauros, e pode, um dia, mudar para nós também.

A teleologiaa linguagem do propósito – é anátema para o biólogo evolucionário dos nossos dias. Muito antes de Darwin e Mendel (1882-1884), ela foi alijada da física pelos cientistas que procuravam, em vez de fins, causas eficientes – do tipo que precede um evento e age para produzi-lo. Uma pedra que cai pode ser atraída para o chão, por exemplo, mas isso se deve à ação da força da gravidade sobre ela. O filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) escreveu: “Desde o início do século XVII, quase todo avanço intelectual sério teve de começar como um ataque a alguma doutrina aristotélica”. No entanto, ninguém menos que Charles Darwin reconheceu que foi Aristóteles que deu a maior contribuição de todas à compreensão da biologia. Lamentavelmente, os métodos que o filósofo expôs não foram empregados por seus herdeiros. Admitindo, em "Da Geração dos Animais", que não sabia como as abelhas se desenvolviam até a maturidade, Aristóteles escreveu:

"Os fatos ainda não foram suficientemente estabelecidos. Se jamais vierem a ser, o crédito deverá ser dado não às teorias mas à observação, e às teorias somente na medida em que elas forem confirmadas pelos fatos observados".

Por quase dois mil anos após a morte de Aristóteles, os filósofos em geral deixaram de observar fatos. Em vez disso, limitaram-se em geral, em suas pesquisas, a observar o próprio Aristóteles. A Igreja contribuiu para a cristalização do pensamento do filósofo e desencorajou novas investigações como uma forma de impiedade. Segundo uma história contada pelo filósofo elisabetano Sir Francis Bacon (1561-1626), um grupo se encontrou na Idade Média para discutir quantos dentes tinha um cavalo. Não conseguindo encontrar uma resposta em qualquer das obras de Aristóteles, um dos mais jovens e mais ingênuos deles sugeriu que fossem até o estábulo e contassem. Por isso, foi expulso da reunião. O episódio diz menos sobre os erros de Aristóteles do que sobre aqueles que, enquanto conservavam suas conclusões, evitavam seus métodos. Comentadores recentes têm sido menos severos para com o filósofo que os de um século atrás, talvez porque tantos dos dogmas inspirados por Aristóteles já estejam agora suprimidos. Somos mais benévolos com nossos inimigos depois que foram derrotados. Isto posto, o pensamento teleológico de Aristóteles não foi derrubado de maneira tão abrangente quanto poderia parecer. Na biologia, não podemos compreender a formação e o desenvolvimento dos olhos e de outros órgãos a menos que saibamos os usos a que servem. E, mais importante, quer os olhos sejam para ver, quer simplesmente vejam, é certo que lhes negar sua função natural leva à sua deterioração. Os olhos de um homem preso por muito tempo numa caverna escura serão incapazes de focalizar à luz do Sol quando ele é libertado, assim como seus dentes acabarão se enfraquecendo e caindo se ele for alimentado só de líquidos.

A mesma análise aplica-se à função do homem como um ser vivo. Aristóteles via a depravação moral como um abandono de nossa função, uma negação de nossa essência e fim último. Uma boa pessoa, por outro lado, é aquela que desempenha bem sua função, tal como uma boa faca é aquela que corta bem. Mas como descobrimos qual a função do homem? Aristóteles definiu-a como aquela parte da natureza dos seres humanos que é exclusiva deles. Não pode ser, portanto, a faculdade de crescer, pois a partilhamos com as plantas. Nem pode ser a da sensação, já que os animais também a possuem. Os que têm na vida o prazer por única meta comportam-se como meros animais. O que de fato temos e nenhuma outra criatura tem, no entanto, é a faculdade da razão. Assim como não podemos compreender uma faca a menos que saibamos que sua função é cortar, ou uma bolota a menos que saibamos que seu fim é desenvolver-se em um carvalho, não nos compreendemos a nós mesmos a menos que estejamos cientes da faculdade que nos é particular e da meta que ela nos permite alcançar: Essa meta – o fim último para o qual todos os nossos fins são meros meios – é a eudaimonia, ou, como poderíamos dizer, a felicidade. Para Aristóteles, a eudaimonia consiste em agir em conformidade com a razão. Uma forma de atividade racional é o raciocínio prático – o tipo envolvido em virtudes morais como a coragem e a generosidade. O propósito da nossa vida é sermos bons – bons em sermos humanos. Contudo, mesmo que uma pessoa exiba todas as virtudes morais no grau correto, o infortúnio ainda seria capaz de lhe causar infelicidade. O indivíduo realmente feliz precisa também ser saudável, abastado e não escravo (nem mulher), acreditava Aristóteles.

Felizmente, acrescentou Aristóteles, há outro tipo de raciocínio que é imune às vicissitudes da vida. As faculdades intelectuais são a faceta mais sublime do homem e proporcionam uma forma de felicidade ainda mais elevada que a virtude moral; a atividade da contemplação filosófica. Não nos seria possível dedicar-nos a ela o dia inteiro (já que temos de comer), mas, enquanto o fazemos, estamos exercendo o que há de melhor em nós e que, segundo Aristóteles, partilhamos com os deuses. Esta talvez seja uma conclusão surpreendente, já que em geral se pensa que filosofia demais deixa a pessoa infeliz. Ela não tinha esse efeito sobre o próprio Aristóteles, que, segundo todos os testemunhos, era um sujeito alegre, mas isso não vem ao caso. “Felicidade” é só uma tradução grosseira do que Aristóteles chamava de eudaimonia, algo muito diferente de contentamento. A eudaimonia não é um estado sedentário que alcançamos após agir bem, como uma recompensa. Nosso fim último é ele mesmo uma forma de atividade e a boa vida consiste em sua execução, assim como poderíamos ir a um restaurante saborear um bom jantar sem esperar que este fosse algo que nos é dado depois da sobremesa. Embora difícil de atingir, a eudaimonia é muito menos elusiva que a “felicidade”. Posso ter uma casa grande, dois carros, um bom emprego e uma família maravilhosa e ainda assim me perguntar: “Sou feliz?”. Quando atingimos a eudaimonia não pode haver tanto lugar para a dúvida, pois ela é medida por fatos objetivos, não por sentimentos subjetivos. Na concepção de Aristóteles, enquanto houver alguém exercitando a virtude intelectual sem ser molestado, a mais elevada forma de vida humana terá sido alcançada.
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